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Crédito Deve Ter Primeiro Aumento Real

2 de fevereiro de 2018

Crédito Deve Ter Primeiro Aumento Real, desde 2014.

O crédito no Brasil deve apresentar neste ano a primeira expansão real desde 2014, deixando para trás um período de profunda retração. Mas a recuperação será gradual e diretamente ligada aos segmentos que vêm puxando a melhora recente da economia. Projeções de bancos e economistas indicam um aumento no estoque total que, na melhor das hipóteses, irá um pouco além de 2%, descontada a inflação – ou 6% em termos nominais.

Enquanto as operações com pessoas físicas já ensaiam uma volta à normalidade com o aumento do consumo, o crédito bancário para empresas – especialmente as grandes companhias – ainda caminha muito lentamente.

Mais conservador que a média do mercado, o Banco Central (BC) prevê:

  • crescimento nominal de 3% para o estoque de crédito no país neste ano;
  • abaixo da variação de 3,96% no IPCA prevista no boletim Focus;
  • A perspectiva da autoridade monetária embute uma projeção de recuo de 2% no volume de operações com empresas;
  • enquanto o saldo de financiamentos às famílias deve crescer 7%.

O mercado brasileiro de crédito:

  1. fechou novembro com R$ 3,063 trilhões em estoque;
  2. queda de 1,3% em um ano, segundo os dados mais recentes do BC;
  3. o último ano de crescimento nominal dos financiamentos foi em 2015;
  4. mas a inflação de 10,67% no período levou a uma queda do saldo em termos reais.

A recuperação só começou a ocorrer em 2017, mas ainda assim em um ritmo mais lento do que o esperado, em especial do lado das empresas. “As famílias foram ajudadas pela queda da inflação e pela redução do desemprego, com impacto positivo no poder de compra”, diz o economista João Morais, da Tendências Consultoria.

Diante disso, os bancos têm dado mais peso às linhas de pessoas físicas, inclusive as diretamente atreladas ao consumo, que ficaram em segundo plano nos últimos anos. É o caso do financiamento de veículos, que voltou ao radar das instituições financeiras recentemente.

“Quem manteve emprego está trocando de carro, comprando roupas e móveis”, afirmou o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, em entrevista no começo de dezembro. É esse movimento que, segundo ele, vai chegar à taxa de investimento das empresas mais adiante.

No caso do crédito à pessoa jurídica, o que os bancos veem por enquanto é uma retomada na demanda de pequenas e médias empresas por linhas de capital de giro e em modalidades atreladas à antecipação de recebíveis.

Castigadas pela crise ou abaladas pelos desdobramentos da Operação Lava-Jato, as companhias de grande porte têm ociosidade de sobra e ainda não precisam de um grande volume de recursos para investir. Algumas delas também têm encontrado no mercado de capitais condições mais vantajosas para se financiar ou reperfilar dívidas.

“Existem evidências de substituição de crédito por mercado de capitais no caso das pessoas jurídicas”, afirmou o chefe do departamento de estatísticas do BC, Fernando Rocha, em entrevista no fim do ano passado. Somando as duas fontes, o volume captado por empresas de janeiro a outubro cresceu 1,8%, segundo dados apresentados por ele.

A expansão do mercado de capitais e a queda no volume de crédito também refletem outro fator: o recuo estratégico do BNDES, fonte que esteve por trás de boa parte do financiamento às grandes companhias na última década. A carteira do banco de fomento encolheu 12,9% no intervalo de um ano até novembro.

Essa mudança veio para ficar. O BC prevê queda de 6% na carteira de crédito direcionado a pessoas jurídicas em 2018. “O crédito a grandes empresas não voltará a ser o que foi. O BNDES encolheu e o mercado de capitais vai continuar crescendo”, afirma Morais, da Tendências.

Nas operações com recursos livres, a situação do crédito a empresas já está melhor. Nessa modalidade, as originações pararam de cair no segundo trimestre e voltaram a crescer no terceiro quando excluídos componentes sazonais, segundo o economista. O volume de concessões de julho a setembro foi 1,6% maior que o apresentado nos três meses anteriores.

A expectativa nos bancos é que as operações com empresas ganhem tração à medida que se consolidar o processo de recuperação da economia. A queda da Selic também deve ajudar, já que reduz as despesas financeiras das companhias, abrindo espaço para novos empréstimos. Nicola Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), observa que as grandes empresas ainda têm passivos para equacionar, mas a situação tende a melhorar ao longo do ano.

Se por um lado a Selic mais baixa pode encorajar os clientes a tomar mais empréstimos, por outro ela pressiona a rentabilidade dos bancos. Diante disso, as instituições financeiras terão de se lançar mais no mercado de crédito. “Em 2018, os bancos já não vão ter tanto espaço para redução de despesas com provisões e, ao mesmo tempo, existe uma pressão generalizada da sociedade e das autoridades pela queda dos spreads. Eles vão precisar de volume para compensar isso”, observa Morais.

A recente inclinação dos bancos para o crédito a pessoas físicas e pequenas e médias empresas também se deve a esse cenário de Selic em declínio. As operações com esses clientes costumam render margens mais elevadas que os negócios com grandes empresas, que em geral trabalham com taxas pós-fixadas e acompanham mais rapidamente a queda do juro básico.

“O maior desafio para os bancos brasileiros no médio prazo é sustentar o crescimento da carteira de crédito e, ao mesmo tempo, melhorar a lucratividade em meio a um ambiente de taxa de juros mais baixas, com o risco de limitar sua capacidade de geração interna de capital no longo prazo”, afirmou a Fitch Ratings em relatório a clientes na semana passada. Apesar disso, a agência de classificação de riscos elevou de “negativa” para “estável” a perspectiva para o setor financeiro brasileiro ao avaliar que o pior ficou para trás em termos de inadimplência.

Para Claudio Gallina, diretor sênior de instituições financeiras da Fitch na América Latina, os bancos passaram bem por 2017, apontado como uma espécie de “ano de testes” para o setor. De acordo com ele, as instituições estão líquidas e bem capitalizadas. “Com a crise, o colchão para perdas foi reforçado. Se quisesse, o sistema como um todo teria condições de colocar mais R$ 1,5 trilhão no mercado de crédito”, diz.

Para o Goldman Sachs, 2018 será um ano de transição para os bancos brasileiros. A volta do crédito ocorrerá em um cenário de margens sob pressão, mas com uma melhora na qualidade dos ativos – o que significa menos inadimplência. “O resultado final desse processo será em 2019, quando esperamos que os bancos registrem um forte crescimento nos lucros impulsionados por um novo ciclo de crescimento do crédito”, escrevem os analistas do banco, em relatório a clientes.

Embora as eleições presidenciais deixem questões em aberto, a expectativa, por ora, é que não tenham grande impacto no mercado de crédito. O principal motor do crédito será o desempenho da economia. “As condições de crescimento já estão dadas”, afirmou o presidente do Bradesco.

Fonte: Blog Televendas & Cobrança – Por: Talita Moreira e Vinícius Pinheiro